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Você estava sentado ou deitado, levantou rapidamente e, por alguns segundos, sentiu a visão escurecer, as pernas enfraquecerem ou a impressão de que iria desmaiar.
Depois passou.
Como melhorou rápido, é comum pensar:
“Deve ter sido só uma queda de pressão.”
Pode ter sido. Mas, quando isso acontece com frequência, começa a provocar insegurança para caminhar ou vem acompanhado de outros sintomas, não deve ser simplesmente normalizado.
A tontura ao levantar pode ocorrer porque o organismo demora um pouco mais do que deveria para ajustar a pressão arterial à mudança de posição. Essa situação é chamada de hipotensão ortostática ou hipotensão postural.
Mas essa não é a única possibilidade.
Desidratação, anemia, alterações do ritmo cardíaco, problemas do ouvido interno, mudanças na glicemia e alguns medicamentos também podem provocar sensações parecidas.
Por isso, antes de concluir que é “pressão baixa” ou “labirintite”, precisamos entender exatamente que tipo de tontura você está sentindo e em quais situações ela aparece.
Afinal, o que você chama de tontura?
A palavra “tontura” pode significar coisas muito diferentes.
Algumas pessoas dizem que estão tontas quando sentem o ambiente girando. Outras descrevem uma sensação de cabeça leve, visão escurecendo ou impressão de que vão desmaiar. Também há quem use essa palavra para falar de desequilíbrio ao caminhar.
Essas diferenças são importantes.
Sensação de que tudo está girando
Quando a pessoa sente que ela própria ou o ambiente está rodando, chamamos essa sensação de vertigem. Ela pode estar relacionada a alterações do sistema vestibular, localizado no ouvido interno, embora existam outras causas possíveis.
Sensação de que vai desmaiar
Nesse caso, a pessoa pode perceber:
- escurecimento da visão;
- fraqueza repentina;
- suor frio;
- cabeça leve;
- necessidade de se sentar;
- impressão de que perderá a consciência.
Essa sensação é mais compatível com uma pré-síncope e pode ocorrer quando há redução temporária do fluxo de sangue para o cérebro.
Desequilíbrio ao caminhar
Algumas pessoas não sentem o ambiente girar nem têm sensação de desmaio, mas percebem que estão instáveis, desviando para os lados ou precisando se apoiar.
Isso pode ter relação com força muscular, visão, alterações neurológicas, medicamentos, problemas articulares ou uma combinação de fatores.
Por isso, dizer apenas “estou com tontura” nem sempre é suficiente. A forma como o sintoma é descrito ajuda bastante a direcionar a investigação.
Por que a pressão pode cair quando levantamos?
Quando estamos deitados e nos levantamos, parte do sangue se desloca pela ação da gravidade em direção às pernas e ao abdome.
O organismo normalmente percebe essa mudança e responde rapidamente, ajustando os vasos sanguíneos e a frequência cardíaca para manter a circulação adequada.
Quando esse mecanismo não funciona bem ou não consegue compensar a mudança a tempo, a pressão pode cair e causar tontura, visão turva, fraqueza ou sensação de desmaio.
A hipotensão ortostática é definida como uma queda persistente de pelo menos 20 mmHg na pressão sistólica ou 10 mmHg na pressão diastólica nos primeiros três minutos após a pessoa ficar em pé.
Em termos práticos, alguém que estava com pressão de 13 por 8 deitado e passa para 11 por 7 ao ficar em pé pode apresentar uma queda compatível com esse quadro, dependendo das condições e da repetição das medidas.
Mas não é apenas o número que importa. Algumas pessoas apresentam sintomas mesmo quando a queda não atinge exatamente esses valores, enquanto outras têm uma redução mensurável sem sentir nada.
Sentir tontura ao levantar de vez em quando é normal?
Pode acontecer ocasionalmente, principalmente quando a pessoa:
- se levanta muito rápido;
- passou muito tempo deitada;
- está desidratada;
- ficou muitas horas sem comer;
- esteve em um ambiente muito quente;
- apresentou febre, vômitos ou diarreia;
- consumiu álcool;
- realizou esforço físico intenso;
- teve uma noite mal dormida.
Nessas situações, o sintoma costuma durar poucos segundos e melhorar quando a pessoa se senta ou se apoia.
Mesmo assim, é importante observar o padrão.
A tontura merece mais atenção quando:
- acontece quase todos os dias;
- está ficando mais intensa;
- já provocou queda;
- ocorre mesmo quando você se levanta devagar;
- começou recentemente;
- apareceu após o início ou ajuste de algum medicamento;
- vem acompanhada de palpitação, dor no peito ou falta de ar;
- causa sensação de desmaio;
- interfere na sua segurança para caminhar.
A idade pode favorecer esse problema?
Sim. Com o envelhecimento, os mecanismos responsáveis por ajustar a pressão às mudanças de posição podem ficar menos rápidos. Além disso, pessoas mais velhas frequentemente usam vários medicamentos, apresentam menor percepção de sede e podem ter mais dificuldade para manter uma hidratação adequada.
Mas isso não significa que tontura e quedas sejam consequências normais da idade.
Esse é um ponto importante porque, muitas vezes, a pessoa começa a adaptar toda a sua rotina ao sintoma.
Ela passa a:
- levantar-se apenas quando há algum apoio por perto;
- evitar tomar banho sozinha;
- caminhar segurando nos móveis;
- deixar de sair por medo de cair;
- reduzir as atividades;
- permanecer mais tempo sentada ou deitada.
Aos poucos, a tontura deixa de ser apenas um desconforto e começa a comprometer a independência.
A hipotensão postural pode aumentar a instabilidade e favorecer quedas, especialmente em pessoas idosas.
Por isso, quando um idoso relata tontura ao levantar, uma queda “sem explicação” ou episódios em que as pernas parecem amolecer, vale investigar com cuidado.
Os remédios podem causar tontura?
Podem — e esse é um motivo muito comum.
Alguns medicamentos podem reduzir a pressão, diminuir a frequência cardíaca, aumentar a perda de líquidos ou interferir na resposta do organismo quando a pessoa se levanta.
Entre os medicamentos que podem contribuir estão alguns usados para:
- pressão alta;
- insuficiência cardíaca;
- próstata aumentada;
- angina;
- doença de Parkinson;
- ansiedade;
- depressão;
- insônia;
- dor;
- retenção de líquidos.
Isso não quer dizer que esses medicamentos sejam inadequados ou que devam ser suspensos.
Muitas vezes, eles são importantes e estão corretamente indicados. O problema pode estar na dose, no horário, na associação entre vários remédios ou em uma mudança recente no estado clínico da pessoa.
Por exemplo, uma dose que era bem tolerada pode passar a provocar tontura depois de uma perda de peso, de uma infecção, de um período com pouca ingestão de líquidos ou da introdução de outro medicamento.
Por isso, diante de tontura, a pergunta não deve ser apenas:
“Qual remédio abaixa a pressão?”
Também precisamos analisar:
- quais medicamentos são usados em conjunto;
- em quais horários;
- se houve alguma mudança recente;
- como está a hidratação;
- se a pressão cai apenas em pé;
- se a frequência cardíaca está muito baixa;
- se os sintomas aparecem depois das refeições;
- se existem outras doenças associadas.
Devo parar o remédio da pressão?
Não por conta própria.
Quando uma pessoa sente tontura, é comum concluir imediatamente que a pressão está “baixa demais” e suspender o tratamento. Mas essa decisão pode fazer a pressão subir de forma importante em outros períodos do dia.
Além disso, alguém pode ter pressão alta enquanto está deitado ou sentado e apresentar queda apenas quando se levanta. Essa combinação exige uma avaliação cuidadosa e não costuma ser resolvida simplesmente retirando todos os medicamentos.
Uma declaração científica da American Heart Association ressalta que hipertensão e hipotensão ortostática podem coexistir e que o manejo deve considerar o padrão da pressão, os fatores desencadeantes e os medicamentos envolvidos.
Às vezes, a solução pode envolver:
- mudar o horário de uma medicação;
- ajustar uma dose;
- substituir algum medicamento;
- tratar a desidratação;
- rever o uso de diuréticos;
- investigar anemia ou outra doença;
- orientar medidas específicas para levantar-se;
- controlar melhor a própria hipertensão.
Essa decisão precisa ser individualizada.
Tontura pode estar relacionada ao coração?
Pode.
Embora a queda da pressão ao se levantar seja uma causa possível, algumas alterações cardíacas também podem provocar sensação de desmaio, fraqueza ou tontura.
Entre elas estão:
- frequência cardíaca muito baixa;
- episódios de coração muito acelerado;
- arritmias;
- alterações importantes das válvulas cardíacas;
- redução da capacidade de bombeamento do coração;
- outras doenças cardiovasculares.
As causas cardíacas precisam ser consideradas principalmente quando a tontura:
- surge junto com palpitações;
- ocorre durante esforço físico;
- aparece sem relação clara com a mudança de posição;
- provoca desmaio;
- vem acompanhada de dor no peito ou falta de ar;
- ocorre em alguém com doença cardíaca conhecida;
- aparece em uma pessoa com histórico familiar de morte súbita.
A hipotensão ortostática é uma causa frequente de síncope, especialmente em pessoas mais velhas, mas arritmias e doenças estruturais também fazem parte da investigação e merecem atenção por poderem ter maior gravidade.
E se a tontura for “labirintite”?
Nem toda tontura é labirintite.
Alterações do ouvido interno podem causar vertigem, náusea, instabilidade e piora dos sintomas com determinados movimentos da cabeça. Mas tontura também pode ser provocada por alterações da pressão, medicamentos, anemia, problemas neurológicos, glicemia baixa ou arritmias.
Uma pista importante é tentar descrever a sensação.
Pergunte a si mesmo:
- O ambiente parece girar?
- Minha visão escurece?
- Sinto que vou desmaiar?
- Fico desequilibrado ao caminhar?
- O sintoma aparece quando mexo a cabeça?
- Acontece apenas quando fico em pé?
- Vem acompanhado de palpitação?
- Melhora rapidamente quando me sento?
Essas respostas não fecham o diagnóstico, mas ajudam bastante durante a consulta.
Como a pressão é avaliada deitada e em pé?
Quando há suspeita de hipotensão ortostática, é possível medir a pressão após alguns minutos de repouso e repetir a aferição depois que a pessoa fica em pé.
De forma geral, observa-se a pressão e a frequência cardíaca:
- após repouso deitado;
- no primeiro minuto em pé;
- novamente após aproximadamente três minutos.
A avaliação procura identificar se existe uma queda significativa da pressão e se ela coincide com os sintomas.
Algumas pessoas tentam fazer esse teste em casa. Porém, se você já desmaiou, caiu ou sente tontura intensa, não tente permanecer em pé sozinho apenas para medir a pressão.
Nesse caso, é mais seguro realizar a avaliação com outra pessoa por perto ou durante uma consulta.
Também não basta anotar apenas o menor valor. É importante registrar:
- pressão deitada ou sentada;
- pressão em pé;
- frequência cardíaca;
- horário;
- presença de sintomas;
- medicamentos tomados naquele período;
- quanto tempo fazia desde a última refeição.
O que fazer no momento da tontura?
Caso sinta que a visão está escurecendo ou que pode desmaiar:
- pare de caminhar;
- sente-se ou deite-se;
- evite tentar “aguentar até passar” em pé;
- segure-se em um apoio firme;
- peça ajuda, se necessário;
- só volte a caminhar quando estiver completamente melhor.
O mais importante nesse momento é evitar uma queda.
Depois, tente lembrar o que aconteceu antes do episódio:
- levantou rapidamente?
- estava há muito tempo sem beber água?
- havia acabado de tomar algum medicamento?
- estava em jejum?
- passou muito calor?
- sentiu palpitação?
- teve dor no peito?
- perdeu totalmente a consciência?
Esses detalhes serão úteis na investigação.
O que pode ajudar a prevenir novos episódios?
Enquanto a causa está sendo avaliada, algumas medidas simples podem ajudar:
- levante-se em etapas;
- primeiro, sente-se na beira da cama;
- aguarde alguns segundos antes de ficar em pé;
- movimente os pés e as pernas antes de se levantar;
- mantenha-se adequadamente hidratado, salvo se houver restrição médica;
- evite ficar muito tempo parado em pé;
- tenha cuidado com banhos muito quentes;
- use um apoio firme ao se levantar;
- mantenha o caminho até o banheiro bem iluminado;
- evite tapetes soltos e obstáculos dentro de casa.
Essas orientações não substituem a investigação e nem são adequadas da mesma forma para todas as pessoas.
Aumentar muito o consumo de água ou sal, por exemplo, pode não ser seguro em quem possui insuficiência cardíaca, doença renal ou pressão alta. Portanto, mudanças importantes devem ser discutidas com o médico.
Quando marcar uma consulta?
Uma avaliação é recomendada quando:
- a tontura acontece com frequência;
- o sintoma começou recentemente;
- você já sofreu uma queda;
- existe sensação de desmaio;
- houve mudança recente nos medicamentos;
- a pressão parece variar muito ao longo do dia;
- a frequência cardíaca fica muito baixa ou muito alta;
- você usa vários medicamentos;
- o sintoma está limitando suas atividades;
- existe doença cardíaca, diabetes, Parkinson ou outro problema neurológico;
- os episódios acontecem depois das refeições;
- há perda de peso, anemia ou sinais de desidratação;
- um familiar idoso passou a ficar mais instável ou inseguro para caminhar.
Em pessoas idosas, a consulta deve ir além de apenas medir a pressão.
Também é importante avaliar medicamentos, força muscular, equilíbrio, visão, hidratação, autonomia e circunstâncias das quedas. As recomendações internacionais para prevenção de quedas defendem uma avaliação ampla dos diferentes fatores de risco, porque raramente existe uma única causa.
Quais exames podem ser necessários?
A escolha depende da história e do exame clínico.
Podem ser considerados:
Medida da pressão em diferentes posições
Ajuda a identificar se existe queda ao passar da posição deitada ou sentada para a posição em pé.
Eletrocardiograma
Avalia o ritmo e a condução elétrica do coração.
Holter ou outro monitor cardíaco
Pode ser indicado quando há suspeita de arritmia, principalmente se os episódios vierem acompanhados de palpitação ou acontecerem de forma imprevisível.
Exames de sangue
Podem investigar:
- anemia;
- alterações da glicemia;
- função renal;
- alterações da tireoide;
- distúrbios de sódio ou potássio;
- sinais de desidratação;
- outras condições clínicas.
Ecocardiograma
Pode ser solicitado quando há suspeita de alteração estrutural do coração, doença valvar ou redução da função cardíaca.
Avaliação neurológica ou vestibular
Pode ser necessária quando os sintomas sugerem vertigem, alteração de equilíbrio ou algum problema neurológico.
Nem todas as pessoas precisarão de todos esses exames. A investigação deve ser direcionada pelo tipo de tontura, pelos sintomas associados e pelas condições de saúde de cada paciente.
Quando procurar atendimento de urgência?
Procure atendimento imediatamente quando a tontura estiver acompanhada de:
- desmaio;
- dor ou pressão no peito;
- falta de ar;
- palpitação intensa ou persistente;
- dificuldade para falar;
- fraqueza ou dormência de um lado do corpo;
- alteração súbita da visão;
- confusão;
- dor de cabeça intensa e diferente do habitual;
- dificuldade repentina para caminhar;
- queda com trauma importante;
- sintomas que não melhoram ao se sentar ou deitar.
Também é importante procurar avaliação rápida quando o episódio ocorre durante o exercício ou em uma pessoa com doença cardíaca conhecida.
Não espere uma queda para investigar
Uma tontura rápida e isolada pode não representar uma doença grave.
O problema é quando o sintoma começa a se repetir e a pessoa vai apenas se adaptando: levanta-se cada vez menos, deixa de caminhar sozinha ou passa a conviver com o medo constante de cair.
A investigação não tem como objetivo apenas encontrar um número baixo na pressão.
Ela serve para entender:
- se a pressão realmente cai ao ficar em pé;
- se algum medicamento está contribuindo;
- se existe uma arritmia;
- se há desidratação, anemia ou outra condição clínica;
- se a pessoa apresenta risco de queda;
- como tornar o tratamento mais seguro sem deixar outras doenças descontroladas.
Mais do que evitar a tontura, o objetivo é preservar a segurança, a confiança para caminhar e a autonomia.
Você tem sentido tontura ao levantar ou passou a ter medo de cair?
Caso os episódios estejam se repetindo, tenham começado após uma mudança nos medicamentos ou estejam comprometendo sua segurança, uma avaliação pode ajudar a identificar a causa, revisar o tratamento e definir quais exames realmente são necessários.
AVISO
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui uma avaliação médica individualizada. Em caso de desmaio, dor no peito, falta de ar, alteração da fala, perda de força ou dificuldade súbita para caminhar, procure atendimento de urgência.
AUTORIA
Dra. Giovanna Menin
Médica cardiologista