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Usar tadalafila para treinar virou uma prática comum em algumas academias.
A ideia parece simples: como o medicamento favorece a dilatação dos vasos, ele aumentaria a circulação nos músculos, deixaria as veias mais aparentes e melhoraria o famoso “pump”.
Daí vem a conclusão:
“Se o músculo ficou mais cheio, então o treino rendeu mais.”
Mas não é bem assim.
Sentir mais vascularização durante o exercício não significa, necessariamente, aumentar a força, ganhar mais massa muscular ou melhorar o desempenho esportivo.
A tadalafila é um medicamento desenvolvido para indicações específicas. Ela não é um pré-treino nem possui aprovação da Anvisa para ganho de força, aumento de massa muscular ou melhora do rendimento físico. Em 2025, a própria Agência publicou um alerta sobre o uso recreativo e estético desses medicamentos, inclusive no ambiente das academias.
Então, antes de colocar a “tadala” na rotina como se fosse apenas mais um suplemento, vale entender o que ela realmente faz.
O que é a tadalafila?
A tadalafila pertence a uma classe de medicamentos chamada de inibidores da fosfodiesterase tipo 5, ou PDE5.
Ela favorece uma via ligada ao óxido nítrico, que promove o relaxamento dos vasos sanguíneos e melhora o fluxo de sangue em determinados tecidos.
Suas principais indicações incluem o tratamento da disfunção erétil e dos sintomas da hiperplasia prostática benigna. Em outras apresentações e doses, a substância também pode ser usada no tratamento da hipertensão arterial pulmonar.
No caso da disfunção erétil, a tadalafila facilita a resposta vascular quando existe estímulo sexual. Ela não provoca uma ereção automaticamente e não aumenta, por si só, o desejo sexual.
Além disso, sua ação é prolongada. Isso significa que os efeitos e algumas interações medicamentosas podem continuar relevantes muitas horas depois de o comprimido ter sido tomado.
Por que algumas pessoas usam tadalafila antes do treino?
Durante a musculação, o fluxo sanguíneo para os músculos aumenta naturalmente.
Isso contribui para o pump: aquela sensação temporária de que o músculo está mais cheio, firme e vascularizado.
Como a tadalafila interfere no relaxamento dos vasos, algumas pessoas percebem mais vascularização durante o exercício. Outras começam a usá-la porque viram influenciadores, amigos ou colegas de academia fazendo o mesmo.
O raciocínio costuma ser:
“Quanto mais sangue chegar ao músculo, mais oxigênio e nutrientes ele receberá. Logo, terei mais força e hipertrofia.”
Essa explicação parece lógica, mas simplifica demais o funcionamento do organismo.
O crescimento muscular depende de um conjunto de fatores, como:
- estímulo adequado durante o treino;
- progressão de carga;
- volume de exercício;
- alimentação;
- ingestão de proteínas;
- sono;
- recuperação;
- regularidade.
O pump pode ser agradável e até aumentar a motivação durante o treino. Porém, ele não é uma medida confiável de hipertrofia.
Tadalafila para treinar melhora o desempenho?
Até o momento, não existe evidência consistente para recomendar tadalafila para treinar em pessoas saudáveis.
Estudos pequenos realizados com atletas avaliaram o efeito de uma dose de tadalafila sobre o exercício. Eles não encontraram melhora substancial da tolerância ao esforço, do desempenho anaeróbico ou das respostas cardiopulmonares durante exercício máximo em condições normais de oxigênio.
Isso não significa que todos os efeitos possíveis já tenham sido estudados. As pesquisas disponíveis envolvem poucos participantes e não respondem a todas as perguntas sobre diferentes modalidades, doses e períodos de uso.
Mas elas também não sustentam a promessa de que a tadalafila aumenta força, resistência ou rendimento na musculação.
Em outras palavras:
você pode perceber mais pump sem ter, de fato, um treino melhor.
Mais pump significa mais hipertrofia?
Não necessariamente.
O pump é um efeito temporário. Ele acontece pelo aumento do fluxo sanguíneo, pelo acúmulo de líquidos e por mudanças locais que surgem durante o exercício.
Já a hipertrofia é uma adaptação construída ao longo do tempo.
O músculo parecer maior durante uma sessão não significa que aquela pessoa ganhará mais massa muscular nas semanas seguintes.
Por isso, não faz sentido avaliar a qualidade de um treino apenas pela quantidade de veias aparentes ou pela sensação de que o músculo está “explodindo”.
Existem pessoas que têm um pump intenso e evoluem pouco. Outras não percebem tanta vascularização, mas progridem carga, treinam com consistência e apresentam ótima evolução.
Mas tomar somente 5 mg não é seguro?
Uma dose menor pode provocar efeitos menos intensos em algumas pessoas. Mesmo assim, isso não transforma o medicamento em suplemento.
A dose de 5 mg é utilizada diariamente em determinadas indicações médicas. Isso não significa que ela seja necessária ou adequada para qualquer pessoa que queira aumentar o pump.
Mesmo em doses baixas, podem existir:
- efeitos colaterais;
- interações medicamentosas;
- contraindicações;
- queda da pressão;
- diferenças individuais na resposta;
- maior risco diante de algumas doenças cardiovasculares.
Também é comum que o uso comece de forma ocasional e passe a ser cada vez mais frequente.
A pessoa pode pensar que já não consegue ter um bom treino sem a medicação ou aumentar a dose por conta própria em busca de um efeito visual mais intenso.
A Anvisa alerta que o uso recreativo ou estético desses medicamentos pode causar eventos adversos e favorecer dependência psicológica, além de envolver produtos irregulares ou de procedência desconhecida.
Quais são os riscos da tadalafila antes do treino?
A maioria das pessoas conhece a tadalafila como um medicamento relativamente seguro. E ela realmente pode ser segura quando existe indicação, avaliação adequada e respeito às contraindicações.
Isso não quer dizer que seja isenta de riscos.
Queda da pressão e tontura
A tadalafila pode reduzir a pressão arterial.
Em muitas pessoas, essa redução é pequena. Porém, o efeito pode se tornar mais perceptível quando existem outros fatores envolvidos, como:
- pressão naturalmente mais baixa;
- desidratação;
- treino em ambiente muito quente;
- uso de diuréticos;
- medicamentos anti-hipertensivos;
- alfa-bloqueadores;
- consumo excessivo de álcool;
- esforço físico muito intenso.
Durante exercícios com carga, uma tontura já é suficiente para criar uma situação perigosa.
Imagine sentir a visão escurecer no meio de um agachamento, de um levantamento terra ou enquanto segura um halter acima da cabeça.
Por isso, episódios de pressão baixa, fraqueza ou tontura ao levantar não devem ser ignorados. As informações oficiais do medicamento orientam cautela na associação com anti-hipertensivos, alfa-bloqueadores e grandes quantidades de álcool.
Dor de cabeça e outros efeitos colaterais
Entre os efeitos mais frequentes estão:
- dor de cabeça;
- vermelhidão no rosto;
- congestão nasal;
- azia ou má digestão;
- dor lombar;
- dores musculares;
- sensação de calor;
- tontura.
Esses sintomas podem prejudicar o treino e permanecer depois que ele termina, já que a tadalafila possui ação prolongada.
Interação com nitratos
Esse é o cuidado cardiovascular mais importante.
A tadalafila não deve ser associada a medicamentos que contêm nitratos, utilizados em algumas situações de angina e dor no peito.
A combinação pode causar uma queda grave da pressão arterial. Por isso, o uso conjunto é formalmente contraindicado.
Caso uma pessoa apresente dor no peito durante ou depois do treino, ela precisa contar à equipe de saúde que usou tadalafila.
Não esconda essa informação por vergonha ou por pensar que a dose foi pequena.
A bula ressalta que a interação com nitratos pode continuar relevante por pelo menos 48 horas depois da última dose. Em uma emergência, saber que houve uso de tadalafila pode mudar a escolha do tratamento.
Produtos manipulados ou de procedência duvidosa
Outro problema é que nem sempre a pessoa sabe exatamente o que está consumindo.
Alguns produtos são vendidos pela internet como gomas, cápsulas, suplementos ou fórmulas “naturais”, sem regularização adequada.
Em 2025, a Anvisa proibiu um produto em formato de goma contendo tadalafila por não possuir regularização e por ter sido produzido por empresa sem autorização para fabricar medicamentos.
Comprar de uma fonte desconhecida aumenta o risco de:
- dose diferente da informada;
- contaminação;
- associação com outras substâncias;
- falsificação;
- armazenamento inadequado.
Posso misturar tadalafila com pré-treino?
“Pré-treino” não é uma substância única.
Existem fórmulas com cafeína, taurina, sinefrina e outros compostos estimulantes. Além disso, algumas pessoas misturam vários produtos sem saber a quantidade total consumida.
Não existe evidência de que combinar tadalafila com pré-treino aumente o desempenho ou a hipertrofia.
Na prática, a mistura também pode dificultar a interpretação de sintomas.
A pessoa sente palpitação, tontura, dor de cabeça ou mal-estar, mas não sabe se isso aconteceu por causa:
- da tadalafila;
- do estimulante;
- da dose de cafeína;
- da desidratação;
- da pressão;
- da intensidade do exercício;
- da combinação de todos esses fatores.
Usar várias substâncias ao mesmo tempo não torna o treino mais eficiente. Apenas torna a resposta do organismo menos previsível.
[LINK INTERNO: Palpitação: ansiedade ou problema no coração?]
E tadalafila com álcool?
O consumo de grandes quantidades de álcool pode aumentar a chance de tontura, aceleração dos batimentos e queda da pressão.
Além disso, o álcool contribui para a desidratação e pode prejudicar o sono, a recuperação muscular e a qualidade do treino.
A associação não deve ser tratada como irrelevante apenas porque é comum em situações sociais. As informações oficiais recomendam cautela devido ao risco de hipotensão e sintomas posturais.
Quem deve ter ainda mais cuidado?
O uso sem avaliação merece atenção especial em pessoas que:
- têm pressão baixa;
- usam medicamentos para pressão;
- utilizam nitratos;
- usam alfa-bloqueadores;
- possuem doença cardíaca conhecida;
- já tiveram infarto ou AVC;
- apresentam dor no peito durante o esforço;
- sentem palpitações ou tontura;
- já desmaiaram durante o exercício;
- possuem doença renal ou hepática;
- usam outros medicamentos para disfunção erétil;
- apresentam perda súbita de visão ou audição após a medicação.
A decisão não deve ser baseada apenas no fato de um amigo ter usado sem apresentar problemas.
Duas pessoas podem reagir de formas completamente diferentes à mesma dose.
E se eu comecei a usar porque estou com dificuldade de ereção?
Esse ponto merece atenção.
Muitos homens começam a tomar tadalafila por conta própria, dizem que é “para o treino” e evitam falar sobre uma dificuldade sexual.
A disfunção erétil pode ter diversas causas, incluindo fatores emocionais, hormonais, neurológicos e efeitos de medicamentos.
Mas ela também pode estar relacionada à saúde dos vasos sanguíneos.
As recomendações do consenso Princeton IV destacam a disfunção erétil como um marcador de risco cardiovascular. Em alguns homens, os sintomas podem aparecer antes de uma doença cardiovascular se tornar clinicamente evidente.
Isso não significa que todo homem com dificuldade de ereção tenha uma doença cardíaca.
Significa que vale aproveitar o sintoma para avaliar:
- pressão arterial;
- colesterol;
- glicemia;
- tabagismo;
- peso;
- qualidade do sono;
- atividade física;
- medicamentos em uso;
- risco cardiovascular global.
Mascarar repetidamente o sintoma com medicação pode adiar uma avaliação importante.
Quando procurar atendimento médico?
Procure atendimento imediato se, depois de usar tadalafila, houver:
- dor ou pressão no peito;
- falta de ar intensa;
- desmaio;
- palpitação persistente com mal-estar;
- fraqueza súbita ou alteração da fala;
- perda repentina de visão;
- perda ou redução súbita da audição;
- ereção dolorosa ou que dure mais de quatro horas.
Esses eventos são incomuns, mas exigem avaliação rápida. As bulas oficiais destacam priapismo e alterações súbitas de visão ou audição entre as situações que necessitam de atendimento.
Ao procurar ajuda, informe:
- que tomou tadalafila;
- a dose, caso saiba;
- o horário do uso;
- outros medicamentos ou substâncias utilizados;
- se houve consumo de álcool;
- o momento em que os sintomas começaram.
Afinal, vale a pena usar tadalafila para treinar?
A tadalafila para treinar pode aumentar a percepção de vascularização e do pump.
Porém, isso não significa que ela aumente a força, a hipertrofia ou o rendimento esportivo.
Os estudos disponíveis em pessoas saudáveis não demonstraram melhora consistente do desempenho que justifique seu uso como pré-treino.
Ao mesmo tempo, a tadalafila pode provocar dor de cabeça, desconforto digestivo, dor muscular, tontura e redução da pressão. Ela também pode interagir com outros medicamentos — especialmente os nitratos.
Isso não faz da tadalafila um medicamento ruim.
Ela é útil quando existe uma indicação adequada e quando as contraindicações e possíveis interações foram avaliadas.
O problema é tratá-la como um suplemento inofensivo apenas porque outras pessoas na academia também usam.
A pergunta não deveria ser apenas:
“A tadalafila melhora o pump?”
A pergunta mais importante é:
“Existe algum benefício real que justifique tomar um medicamento e me expor aos seus possíveis efeitos?”
Para a maioria das pessoas saudáveis que busca força, hipertrofia e desempenho, os fatores que realmente farão diferença continuam sendo treino bem planejado, alimentação, recuperação e consistência.
Você usa tadalafila antes do treino?
Caso utilize tadalafila regularmente, tome outros medicamentos ou apresente dor no peito, palpitação, tontura, falta de ar ou queda de rendimento durante o exercício, uma avaliação pode ajudar a identificar possíveis riscos e verificar se existe alguma condição cardiovascular que precisa ser investigada.
AVISO
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui uma avaliação médica individualizada. Não inicie, suspenda ou altere medicamentos sem orientação. Em caso de dor no peito, falta de ar intensa, desmaio ou outro sintoma importante, procure atendimento de urgência.
AUTORIA
Dra. Giovanna Menin
Médica cardiologista